Em momentos de tensão geopolítica e incerteza global como a atual, é natural surgir o impulso de proteger o capital. Muitas vezes através de decisões rápidas, como vender ativos de risco ou adiar investimentos.
Mas há uma distinção essencial que ajuda a decidir com mais clareza: nem todo o risco é financeiro. Em muitos casos, o que sentimos é sobretudo risco emocional: o medo, a ansiedade e o desconforto provocados pela incerteza.
Nas finanças comportamentais, este fenómeno está associado à aversão à perda e às reações excessivas ao ruído de curto prazo. Ou seja, tendemos a agir mais para aliviar emoções do que com base em factos.
Risco financeiro:o que pode ser medido e gerido
Embora existam diversos tipos de risco financeiro, aquele que é mais visível, é o que reflete as oscilações de mercado, as descidas e subidas naturais dos preços em bolsa. Aquilo a que se chama de volatilidade e que é possível de medir.
Este risco pode ser gerido, por exemplo, através da diversificação (combinação de diferentes classes de ativos, setores de atividade, geografias e emitentes) e deve encontrar-se alinhado com os objetivos e horizonte temporal de investimento. Investir numa única empresa, por exemplo, tende a ser mais arriscado do que num conjunto diversificado.
Para todos os ativos cotados em mercado, este risco financeiro existe sempre. Não surge apenas quando há más notícias. Faz parte do investimento, sobretudo quando o horizonte é de médio e longo prazo.
Mesmo em contextos geopolíticos complexos, os mercados tendem, com o tempo, a ajustar expectativas e a distinguir entre o impacto económico real e a reação emocional imediata.
Risco emocional: o que influencia decisões e pode destruir estratégias
O risco emocional não está nos mercados, mas nas nossas reações. Surge quando:
- confundimos notícias com necessidade de agir de imediato;
- seguimos a ansiedade coletiva;
- tomamos decisões apenas para reduzir o desconforto.
É comum, por exemplo, vendermos investimentos após quedas ou adiarmos decisões indefinidamente à espera de maior clareza. O problema é que essas escolhas afastam-nos da estratégia definida.
O risco emocional pode destruir os resultados dos investimentos efetuados, especialmente quando nos leva a entrar e sair nos piores momentos.
Porque é que a geopolítica amplia o risco emocional?
Conflitos internacionais combinam três fatores que afetam diretamente o comportamento humano:
- elevada carga emocional;
- cobertura mediática intensa;
- sensação de imprevisibilidade.
O cérebro reage à incerteza como se estivesse perante uma ameaça imediata. Isso aumenta a perceção de perigo e a urgência de agir, transformando prudência em imobilismo ou cautela em impulsividade.
O perigo de reagir ao ruído
As notícias de conflitos geopolíticos tendem a refletir-se rapidamente nos preços de mercado. Reagir a esse ruído pode levar a decisões tardias e pouco eficazes.
Vender em contexto de quedas acentuadas pode cristalizar perdas e fazer abdicar da recuperação que, muitas vezes, se segue.
Lembre-se, a história dos mercados mostra que a consistência e a disciplina tendem a ser mais recompensadas do que a tentativa de adivinhar o momento certo.
Tome Nota:
Nem todo o desconforto é risco. Muitas vezes, é apenas o preço emocional da incerteza.
Antes de agir faça esta pergunta: o risco mudou ou foi apenas a sua perceção?
Antes de tomar uma decisão, vale a pena parar e refletir:
- O meu objetivo mudou?
- O meu horizonte temporal encurtou?
- A minha carteira deixou de fazer sentido?
Se a resposta for não, e o que existir for apenas maior inquietação, então o risco é sobretudo emocional, não financeiro.
Uma mensagem final para decidir e investir melhor. Em tempos de incerteza, tanto a ação precipitada como a espera indefinida têm custos. Disciplina, método e foco nos objetivos tendem a ser os melhores aliados do investidor.
Boas práticas em tempos de incerteza
- Ter um plano alinhado com os objetivos e o horizonte temporal;
- Manter disciplina e consistência;
- Distinguir prudência de inação;
- Focar no médio e longo prazo;
- Usar estratégias disciplinadas, como diversificação e investimentos regulares, para reduzir a tentação de entrar e sair por emoção.
Filipa André
Diretora de Marketing e Comunicação da Caixa Gestão de Ativos
Esta informação não constitui uma recomendação de investimento e não pode servir de base à compra ou venda de ativos nem à realização de quaisquer operações nos mercados financeiros assim como não deve ser considerado a base de qualquer tipo de contrato.
O Investimento nos Fundos de Investimento não tem garantia de rendimento e pode implicar a perda do capital investido, pois não existe garantia de capital.
