Mudar de carreira em tempos de crise?

Trabalho

Se já começa a sentir o cerco da falta de emprego, pondere mudar de carreira. Saiba como agir e como orientar os objetivos. 29-06-2020

Mudar de carreira pode parecer assustador mas, em tempos de crise pode ser a solução para estabilizar o seu emprego. Saiba como reagir e antecipar alternativas se tiver que mudar o rumo profissional.

Mudar de carreira envolve sentimentos de insegurança que podem ser reforçados quando nos encontramos em tempos de crise: será seguro mudar durante um período de incerteza económica e financeira?

Se para muitas pessoas os períodos de crise são de retração, para outros são momentos de se lançar a novos desafios. Além de todo o ambiente depressivo, uma crise pode gerar oportunidades no mercado de trabalho com as mudanças que pode gerar, por exemplo com o reforço de indústrias específicas, alargamento dos seus posto de trabalho e produção.  

No entanto, e embora seja um exercício que em muitas ocasiões exige urgência, como esta que vivemos agora de uma crise inesperada, mudar de carreira implica também investimento.

Este investimento envolve várias frentes, seja para a aquisição de novos conhecimentos, requalificação, ou aprimoramento profissional. Se pensa em apostar numa mudança na sua carreira conheça algumas dicas que podem ajudar a dar os primeiros passos.

Algumas dicas iniciais, jogue na antecipação de tendências; reforce os níveis de persistência; seja ágil a atuar. Lembre-se que a sorte pertence aos audazes.

 

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Mudar de carreira: o que fazer antes de dar os primeiros passos

Avaliar o contexto

Antes de avançar com um plano para mudar a sua vida profissional, deve fazer uma avaliação do contexto do mercado. Esta avaliação vai ajudá-lo a perceber se as empresas da sua indústria ou área profissional irão continuar a contratar durante a crise e nos próximos anos e com que condições, o que mudou no setor e como poderia se adaptar à nova realidade.

Os especialistas em transformação digital apontam, por exemplo, que a pandemia do Covid-19 veio antecipar, em pelo menos 10 anos, a digitalização das empresas. Esse processo, certamente, vai mudar a necessidade de contratação e vai exigir novas competências e perfis profissionais.

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Reavaliar a situação

Antes de mais, reavalie quais são as motivações para mudar de carreira. Tem dificuldades em conseguir oportunidades de trabalho? Está desempregado? Está descontente com a profissão que escolheu e não se sente realizado? Está insatisfeito com as suas funções? A empresa onde trabalha já não corresponde às suas expectativas de carreira?

A resposta a esta pergunta pode ditar todas as etapas seguintes para conseguir o seu objetivo. Lembre-se, se procura mudar de carreira porque está descontente com a situação atual na empresa, é importante avaliar a motivação e se existem alternativas. É possível pedir uma mudança de funções, dentro da mesma empresa? Já falou com o seu chefe ou com os recursos humanos? Há a possibilidade de se candidatar a outro cargo, dentro da empresa ou do grupo? A mudança de carreira não tem de passar, obrigatoriamente, pela mudança de empresa. Avalie as suas opções e as condições e competências que necessita para promover essa mudança.

Já para quem está desempregado, o desafio é um pouco mais complexo. Ou não. É importante tentar identificar as exigências do mercado mas sobretudo, perceber as aptidões e as competências com que pode responder-lhes. È essencial perceber os pontos fortes com que pode contar de maneira imediata, mas também as suas lacunas ou carências técnicas.

Resista a aceitá-las como um dado adquirido e invista em si para as ultrapassar. Nunca é tarde para mudar, sobretudo se sente insatisfação com área profissional que escolheu. Aposte num plano de formação que se adapte aos seus objetivos e contexto, assim como defenda o seu potencial competitivo. 

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Avaliar a indústria

Perceber quais são as projeções de futuro e tendências da indústria onde trabalhamos, ou na qual pretendemos trabalhar, é também um fator decisivo na tomada de decisão.

As crises económicas têm diferentes impactes em diferentes indústrias. Em consequência, há indústrias nas quais a crise se reflete numa contração das contratações, reduzindo substancialmente as vagas disponíveis. Depois de avaliar a natureza de potenciais industrias onde possa encaixar os seus talentos, assim como a sua evolução no seu futuro, será mais fácil tomar uma decisão informada.

 

Analisar o mercado

Como está o mercado de recrutamento? Como estará daqui a uns meses? Faça uma breve pesquisa nos principais sites de recrutamento para perceber qual a situação atual. Fale com profissionais das que mais lhe interessam e tenta validar as suas previsões para o futuro. Esta pesquisa de informação, estruturada e intensiva, é fundamental para reunir informação sobre o que pode esperar.

 

Mudar de carreira em meio à crise

Para João Azevedo e Silva, da Upper Side - Career Management & Advisory, “num período como o que atravessamos, a procura de um novo desafio profissional pode tornar-se um processo mais complexo, pelos importantes impactes quantitativos e qualitativos no mercado de emprego. Compreender profundamente as dinâmicas das diferentes indústrias, das diversas áreas funcionais e das missões mais procuradas em cada categoria funcional, é meio-caminho andado para um esforço bem-sucedido, por permitir desenhar uma estratégia consequente.”

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Qual o caminho a seguir?

Tão importante quanto avaliar as tendências da indústria e do mercado, é fazer uma avaliação crítica do seu percurso profissional.

Note que a dificuldade em encontrar um emprego pode ir além da falta de qualificações. Podemos falar antes de qualificações desajustadas às necessidades atuais do mercado - sobretudo quando falamos de momentos de crise.

Por isso, ao pensar em mudar de carreira, tenha em mente alguns caminhos possíveis:

  • Reconversão profissional: a evolução tecnológica dos diferentes setores industriais e do mercado de trabalho gerou uma desadequação entre as competências de muitas áreas profissionais e as demandas das empresas. A reconversão profissional é uma solução para acompanhar a competitividade dos mercados, integrando os profissionais a partir da aquisição de um novo leque de competências técnicas e científicas diferentes daquelas que obteve na sua área de formação. Esta alternativa implica uma mudança na área de atuação profissional a partir do desenvolvimento de novos conhecimentos através de novos cursos e formações. Perceber as tendências futuras do mercado e também identificar as aptidões pessoais são passos importantes para quem opta por esta estratégia.

 

  • Requalificação profissional: a requalificação profissional está diretamente relacionada com a ideia de lifelong learning, ou educação ao longo da vida. Implica o reforço das capacidades dos trabalhadores e uma constante atualização das suas competências técnicas e das soft skills, orientadas para o mercado do futuro de modo a que os profissionais se mantenham competitivos.

 

Ao pensar numa perspetiva de requalificação profissional, uma estratégia para mudar de carreira pode passar por especializar-se em determinada área da sua formação, e como isso, adquirir novas habilitações e competências para responder às necessidades do mercado.

De qualquer modo, além de avaliar a questão da empregabilidade, importa identificar uma área de atuação profissional para a qual tenha motivação e interesse. Outro fator a ter em conta são os seus anos de experiência.

Mudar de carreira aos 30, é diferente de mudar de carreira aos 40 ou 50. Mesmo assim,  todo o percurso profissional deve ser valorizado, inclusive a coragem de mudar.

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Os primeiros passos para mudar de carreira

1. Definir um plano: depois de saber qual a mudança que pretende fazer e para que área profissional pretende migrar, identifique as competências a adquirir e defina uma estratégia e um prazo. Pesquise sobre cursos e formações, os custos envolvidos, e a duração.

2.Identificar as entidades e os programas que o podem ajudar: procure entidades públicas e privadas que possam ajudar a impulsionar e acelerar a mudança.

 

  • IEFP: serviço público de emprego nacional, o IEFP oferece informação, orientação e programas de formação, qualificação e reabilitação profissional. A partir do IEFP pode ter acesso a formações oferecidas por entidades associadas.

 

  • Qualifica: o programa que tem como objetivo aumentar os níveis de qualificação e melhorar a empregabilidade, o Qualifica oferece diferentes modalidades de formação, incluindo cursos de formação tecnológica.

 

  • Ativar.pt:medida criada no âmbito do Programa de Estabilização Económica e Social, que visa dar resposta à crise gerada pela pandemia do Covid-19, o Ativar.pt tem como proposta o reforço nas políticas para fomentar a formação profissional e a requalificação profissional no ensino superior.

 

  • INCoDe.2030: trata-se de uma iniciativa integrada de política pública dedicada ao reforço de competências digitais. O INCoDe.2030 disponibiliza atividades de especialização e qualificação com diferentes propostas e para distintos perfis de público.

 

  • Empresas de gestão e aconselhamento de carreira: existem profissionais e empresas especializadas que o podem aconselhar sobre mudança de carreira durante períodos de crise e ajudar a delinear um plano. Estes profissionais possuem um grande conhecimento do mercado de trabalho e da sua evolução em diferentes contextos, podendo aconselhá-lo sobre como e quando deve mudar de carreira. Por vezes, colocam os candidatos em contacto com potenciais empregadores, facilitando o processo de mudança, mesmo em tempo de crise.

 

Cursos e Formações online

Para quem já sabe quais são as competências que pretende obter, a formação através de plataformas online é uma boa alternativa, principalmente para quem vai acumular a formação e o trabalho. Se optar por esta solução, é importante que escolha uma entidade formadora certificada, com certificação DGERT, e com uma boa reputação. Muitas universidades portuguesas e estrangeiras também oferecem cursos online de curta e média duração.

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3.Atualizar o seu CV e LinkedIn

Atualizar o CV é um exercício de reavaliação do percurso profissional. Destaque e valorize as experiências e aptidões que estão mais relacionadas com a nova área na qual pretende atuar. Não se esqueça de incluir dados específicos. Por exemplo, num cargo relacionado com as vendas, os resultados obtidos ao fim de um determinado período de tempo. Isto irá fazer com que o seu currículo sobressaia aos demais e dará ao recrutador uma ideia imediata do que é capaz de atingir.

No contexto atual, as soft skills são muito valorizadas, mas deve ter cuidado ao incluí-las no seu CV. Fuja de clichés e justifique as competências não técnicas, dando exemplos específicos de momentos em que estas foram de utilidade em contexto laboral.

Não se esqueça que as competências técnicas continuam a ser valorizadas. Inclua formações, certificações e cursos que tenham permitido adquirir novas competências ou cimentar competências já adquiridas.

O LinkedIn, a rede social para profissionais, é uma excelente ferramenta para avaliar as oportunidades do mercado. Além de permitir criar uma rede de contactos (reforçando o networking), esta rede profissional conta com cada vez mais empresas a publicar anúncios de emprego.

Muitas empresas começam mesmo a recrutar diretamente por esta via, em contacto direto com potenciais candidatos. No LinkedIn, poderá criar ligações com profissionais da área, trabalhar a sua marca pessoal e concorrer a anúncios de emprego. Deve investir algum tempo nesta gestão, ou seja a atualizar e incrementar o seu perfil.

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