Quando o dinheiro deixa de chegar para pagar as despesas essenciais e as prestações, é importante perceber a dimensão do problema e procurar apoio.
Para os créditos bancários, existem mecanismos de prevenção e regularização do incumprimento. Há também aconselhamento gratuito e respostas para outras dívidas. A solução depende da situação financeira e do tipo de encargos.
Nunca espere por uma prestação em atraso para contactar o banco. Se antecipa dificuldades, deve comunicá-las. Se já deixou de pagar, pode solicitar a integração no PERSI, o procedimento destinado a negociar a regularização do incumprimento.
Como perceber se o orçamento familiar está em risco?
As prestações dos empréstimos são despesas fixas. Quanto maior for o seu peso no orçamento, menor será a margem para pagar outros encargos e enfrentar imprevistos. O desemprego, a doença ou uma quebra de rendimentos podem tornar mais difícil cumprir os compromissos que já tenha assumido.
Para avaliar a sua situação, comece por identificar todos os rendimentos e despesas. O saldo do orçamento corresponde à diferença entre o dinheiro que entra e o que sai. Este levantamento permite perceber se os encargos são compatíveis com os rendimentos. Mais importante, permite evitar o risco de incumprimento e do sobre-endividamento e pode orientá-lo num plano correctivo.
Como exercício prático, procure responder a estas perguntas:
Depois das despesas essenciais, quanto sobra para pagar os créditos?
- Existem pagamentos em atraso?
- Uma quebra de rendimentos comprometeria a próxima prestação?
- Conhece o total das dívidas e os respetivos prazos?
- Tem responsabilidades como fiador?
A análise deve incluir as garantias prestadas a outras pessoas. Ser fiador pode implicar assumir o pagamento de um empréstimo quando o devedor não cumpre.
O primeiro passo: organizar as despesas e as dívidas
Antes de negociar, reúna informação sobre o orçamento e os compromissos financeiros. Identificar rigorosamente os rendimentos e as despesas é o primeiro passo para elaborar o orçamento familiar.
Para facilitar esse trabalho, organize a informação em três grupos:
- Rendimentos: salários, pensões, prestações sociais e outras entradas regulares;
- Despesas essenciais: habitação, alimentação, saúde, transportes, educação e serviços básicos.
- Dívidas: créditos, pagamentos em atraso e outros valores devidos.
Como ferramenta de organização, faça uma lista com o nome de cada credor, o montante em dívida, a prestação, a data de pagamento e eventuais atrasos. Guarde também os contratos, extratos e comunicações recebidas.
Este levantamento é uma recomendação prática. Não corresponde a um formulário obrigatório igual para todos os mecanismos de apoio.
Consulte o mapa de responsabilidades de crédito
Pode obter gratuitamente o seu mapa de responsabilidades de crédito no site do Banco de Portugal. O documento apresenta os contratos comunicados à Central de Responsabilidades de Crédito, organizados por instituição. Inclui informação sobre montantes em dívida, incumprimento e responsabilidades potenciais.
As responsabilidades potenciais não são necessariamente dívidas já existentes. Podem corresponder, por exemplo, ao limite não utilizado de um cartão de crédito ou a uma fiança.
Use o mapa para conferir os créditos e complete o levantamento com as restantes obrigações do agregado familiar.
Consegue pagar mas antecipa dificuldades: contacte o Banco e recorra ao PARI
O Plano de Ação para o Risco de Incumprimento, ou PARI, atua na prevenção. Cada instituição deve ter procedimentos para acompanhar os contratos e identificar sinais de dificuldade financeira. O próprio cliente deve alertar o banco quando prevê que poderá deixar de pagar.
Depois do alerta, a instituição avalia a situação. Pode solicitar informação e documentos necessários para conhecer a capacidade financeira do cliente. Estes elementos devem ser disponibilizados no prazo máximo de 10 dias.
Quando existe capacidade financeira para evitar o incumprimento através de uma solução ajustada, o banco deve apresentar propostas adequadas. Estas podem incluir alterações ao prazo, períodos de carência ou outras medidas de reestruturação.
O PARI não é um subsídio nem suspende automaticamente as prestações. A alteração das condições de pagamento depende da solução acordada com a instituição.
Já tem prestações em atraso? Saiba quando se aplica o PERSI
O Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento, ou PERSI, destina-se a negociar soluções quando já existem pagamentos de crédito em atraso. Aplica-se aos contratos abrangidos pelo regime legal.
Não tem de esperar por vários meses de incumprimento para pedir ajuda. Se já estiver em atraso, pode solicitar a integração no PERSI através de uma comunicação que possa guardar e reproduzir. Nesse caso, a instituição deve integrá-lo na data em que recebe o pedido.
A lei prevê ainda esta integração no PERSI:
- Na data do incumprimento, quando o cliente tenha alertado previamente para o risco;
- Entre o 31.º e o 60.º dia após o vencimento da obrigação, quando o incumprimento se mantém e não tenha ocorrido uma integração anterior.
O Banco deve comunicar a integração no prazo máximo de cinco dias. Depois, avalia a situação financeira e, quando exista capacidade para cumprir uma solução, apresenta propostas de regularização nos 30 dias posteriores ao início do procedimento.
Que proteção existe durante o PERSI?
Enquanto o PERSI decorre, o banco não pode resolver o contrato com fundamento no incumprimento nem intentar uma ação judicial para recuperar o crédito. Existem também limitações à transmissão do crédito a terceiros, com as exceções previstas na lei.
Estas garantias não significam que a dívida desapareça. O objetivo é criar condições para negociar uma solução extrajudicial.
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Que soluções podem ser negociadas para pagar os créditos?
No âmbito do PARI ou do PERSI, as propostas podem incluir:
- Alargamento do prazo: mais tempo para amortizar o empréstimo;
- Carência: um período sem reembolso de capital ou sem pagamento de capital e juros, conforme o acordo;
- Diferimento de capital: adiamento de parte do reembolso para uma prestação futura;
- Redução temporária da taxa de juro;
- Consolidação de créditos: junção de vários contratos;
- Refinanciamento: um novo contrato destinado a financiar a dívida existente.
A solução deve ser adequada à capacidade financeira, aos objetivos e às necessidades do cliente. Não existe aprovação automática de uma medida específica.
Antes de aceitar, peça esclarecimentos sobre a prestação, o prazo, o custo total e os pagamentos previstos depois de terminar uma eventual carência. Esta comparação é uma recomendação prática para compreender o compromisso que vai assumir.
A renegociação tem custos?
Nas operações abrangidas por estes mecanismos, a instituição não pode agravar a taxa de juro nem cobrar comissões pela renegociação, refinanciamento ou consolidação destinados a prevenir ou regularizar o incumprimento.
Podem, contudo, ser cobradas despesas suportadas perante terceiros, como encargos fiscais ou pagamentos a conservatórias e cartórios. O banco deve apresentar a respetiva justificação documental.
Tem vários créditos? Apresente a situação completa
A avaliação da capacidade financeira deve considerar os encargos com créditos de outras instituições e eventuais incumprimentos. Por isso, apresente informação completa e atualizada, não apenas sobre o empréstimo que pretende renegociar.
Como orientação prática, contacte cada instituição onde antecipe dificuldades ou já tenha prestações em atraso.
Quando existem vários contratos em incumprimento na mesma instituição durante o PERSI, o banco deve procurar regularizá-los num único procedimento e informar o cliente.
Onde pedir aconselhamento gratuito sobre dívidas bancárias?
A Rede de Apoio ao Cliente Bancário, conhecida pela sigla RACE, presta apoio gratuito a quem está em risco de incumprimento ou já tem prestações em atraso.
As entidades desta rede podem explicar direitos e deveres, ajudar a analisar propostas do banco, acompanhar a negociação no PARI ou no PERSI e apoiar a avaliação da capacidade de endividamento.
Há limites importantes. A RACE não representa o cliente perante o banco e não realiza mediação, conciliação ou arbitragem nestes procedimentos. A sua atuação termina se a instituição intentar uma ação judicial relacionada com o contrato a que se refere o apoio.
Consulte a lista oficial de entidades da rede para encontrar os contactos adequados.
Não consegue chegar a acordo? Conheça o mediador do crédito
O Mediador do Crédito pode intervir quando existe um impasse na contratação ou renegociação de crédito. O serviço é gratuito e procura facilitar a comunicação entre o cliente e a instituição.
O pedido deve ser escrito e fundamentado. Deve identificar a instituição, explicar a situação e incluir a correspondência que demonstre a tentativa prévia de negociação, além de outros documentos relevantes. A mediação procura aproximar as partes, mas não garante a obtenção de um acordo
E se as dívidas forem de rendas ou água e eletricidade?
Nem todas as dívidas são créditos bancários. O Sistema Público de Apoio à Conciliação no Sobre-Endividamento, ou SisPACSE, permite procurar um acordo com credores através de um conciliador. Pode abranger, por exemplo, dívidas de rendas, água, eletricidade, gás, internet ou empréstimos entre particulares.
O sistema destina-se a pessoas singulares e empresários em nome individual residentes em Portugal, nas situações previstas. Não permite regularizar dívidas às Finanças ou à Segurança Social nem créditos abrangidos pelo PARI e pelo PERSI. Existem também exclusões relacionadas com processos de insolvência, revitalização ou acordo de pagamento em curso.
O requerimento e a sessão informativa não têm custos. Se as partes avançarem para a conciliação, o devedor paga uma taxa única de 30 euros. O pedido é apresentado através de formulário eletrónico.
Quando é necessário avaliar uma solução judicial?
Quando as dificuldades exigem uma resposta mais ampla, pode ser necessário avaliar os mecanismos judiciais aplicáveis.
O Processo Especial para Acordo de Pagamento, ou PEAP, destina-se a pessoas e entidades que não sejam empresas, em situação económica difícil ou insolvência meramente iminente. Procura permitir um acordo de pagamento com os credores.
A insolvência corresponde à impossibilidade de cumprir as obrigações vencidas. O processo pode envolver a liquidação do património para satisfazer os credores ou outras soluções previstas na Lei. Não equivale a um perdão automático das dívidas.
A escolha entre estas respostas deve ser analisada com apoio jurídico, tendo em conta as dívidas, os rendimentos, o património e a situação concreta.
Já existe uma execução? Ainda pode procurar apoio
As entidades reconhecidas pelo Ministério da Justiça podem apoiar a elaboração de um plano de pagamentos, incluindo quando já foi instaurado um processo executivo. Esse apoio pode envolver negociação, conciliação ou mediação com os credores.
Não confunda esta atuação com o acompanhamento prestado pela RACE no âmbito dos contratos bancários. São respostas com enquadramentos diferentes.
Não consegue pagar um advogado?
Pode pedir apoio judiciário, sujeito à avaliação da sua situação económica. Consoante a modalidade atribuída, pode incluir a nomeação e pagamento de um advogado, a dispensa de encargos processuais ou o seu pagamento em prestações. O pedido pode ser apresentado através da Segurança Social Direta ou nos serviços da Segurança Social.
Como prevenir o agravamento das dificuldades financeiras?
A prevenção passa por acompanhar o orçamento e comunicar cedo as dificuldades. O portal Todos Contam recomenda uma gestão responsável do endividamento e a colaboração com as instituições na procura de soluções.
Como lista prática de acompanhamento:
- Reveja os rendimentos e as despesas;
- Identifique os pagamentos que pode deixar de conseguir cumprir;
- Contacte os credores antes de os atrasos se acumularem;
- Entregue informação completa e atualizada;
- Analise as propostas antes de assumir novos compromissos;
- Procure aconselhamento quando não compreender as condições.;
- Acompanhe o orçamento depois de alcançar um acordo.
O essencial é não confundir pedir ajuda com deixar de pagar. O PARI permite atuar antes do incumprimento. Quando já existem atrasos, o PERSI enquadra a procura de uma solução para os créditos abrangidos.
Perguntas frequentes acerca de sobre-endividamento familiar
Posso pedir ajuda antes de falhar uma prestação?Sim. Deve alertar o banco quando antecipa dificuldades. O PARI destina-se precisamente à prevenção do incumprimento.
Tenho de esperar dois meses para entrar no PERSI?
Não. Se já estiver em atraso e solicitar a integração através de uma comunicação em suporte duradouro, o banco deve integrá-lo na data em que recebe o pedido.
A RACE paga as minhas dívidas?
Não. A rede presta informação, aconselhamento e acompanhamento gratuito. Não é um apoio financeiro para liquidar dívidas.
O mapa de responsabilidades de crédito é uma lista de incumpridores?
Não. Inclui créditos em situação regular, créditos com pagamentos em atraso e responsabilidades potenciais.
O banco é obrigado a aprovar a consolidação dos meus créditos?
Não existe aprovação automática. As propostas dependem da avaliação da capacidade financeira e da adequação da solução à situação do cliente.
Que apoio corresponde à minha situação?
| Situação | Resposta a conhecer |
|---|---|
| Antecipo dificuldades para pagar um crédito | PARI |
| Já tenho prestações de crédito em atraso | PERSI |
| Preciso de ajuda para compreender propostas | RACE |
| A negociação com o banco está bloqueada | Mediador do Crédito |
| Tenho determinadas dívidas de rendas ou serviços | SisPACSE, sujeito às condições de acesso |
| Preciso de avaliar uma resposta judicial | Aconselhamento jurídico sobre PEAP ou insolvência |
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A informação deste artigo não constitui qualquer recomendação, nem dispensa a consulta necessária de entidades oficiais e legais.
