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Quando vai ao supermercado, sente que traz menos compras pelo mesmo dinheiro? Já não consegue poupar tanto como antigamente? É sinal de que a sua vida financeira está a sofrer o impacte da inflação.
Mas, afinal, do que se trata? Como se calcula? O que pode fazer para sentir menos os seus efeitos? Descubra, neste artigo, a resposta a estas e outras perguntas sobre a inflação.
Da prática aos seus efeitos na vida real, confira cada detalhe sobre o que precisa saber para defender consumo e poupança.
O que é a inflação?
A inflação é o aumento generalizado e contínuo dos preços dos bens e serviços ao longo do tempo. Isto significa que, com o passar dos anos, o dinheiro perde poder de compra. Ou seja com a mesma quantia de dinheiro, as pessoas conseguem comprar menos coisas.
Na prática, com 1 euro, consegue comprar menos hoje do que ontem. Um fenómeno que afeta as famílias, não só no supermercado, como também nos preços das portagens ou da eletricidade, telecomunicações e outros serviços.
Na prática estatística, este conceito mede quanto aumentou o custo de vida num determinado período. Quando se diz que a inflação é de 3%, por exemplo, isso não significa que todos os produtos tenham subido exactamente 3%. Alguns podem ter aumentado mais, outros menos e alguns até podem ter descido. A taxa de inflação é uma média calculada com base num conjunto representativo de despesas, como alimentação, habitação, energia, transportes, saúde, educação, lazer e outros bens e serviços.
A inflação é, portanto, uma média estatística. Mas os seus efeitos são muito concretos no dia a dia.
Como se calcula a inflação?
A inflação mede-se de acordo com o preço de um cabaz de produtos consumidos pelas famílias, em determinado mês. Esse cabaz inclui bens e serviços, como vestuário, habitação, transportes, alimentação e lazer.
No mês homólogo do ano seguinte, somam-se novamente os preços do mesmo cabaz de produtos e serviços. A diferença percentual entre os dois valores apurados, com 12 meses de diferença, corresponde à taxa de inflação.
Tome Nota:
Em Portugal, é o Instituto Nacional de Estatística (INE) que calcula a taxa de inflação. Pode consultar aqui os resultados mais recentes.
Inflação na Zona Euro
Para medir a inflação na Zona Euro, todos os países seguem a mesma metodologia de cálculo. Trata-se do Índice Harmonizado de Preços no Consumidor, também conhecido como IHPC. Na prática, sistemas automatizados recolhem milhões de preços todos os meses (em média, cerca de 700 bens e serviços). Após a devida ponderação, o Eurostat, responsável pelas estatísticas da União Europeia calcula a inflação à escala europeia.
Impacte da inflação nos rendimentos
O poder de compra mede aquilo que o dinheiro permite adquirir. Se tem 100 euros hoje e, daqui a um ano, os mesmos produtos custam mais, esses 100 euros já não chegam para comprar o mesmo.
Imagine que um conjunto de compras custa 100 euros. Se, ao fim de um ano, esses mesmos produtos passarem a custar 103,40 euros, os 100 euros iniciais continuam a ser 100 euros, mas já não chegam para pagar o mesmo cabaz. É esta a perda de valor provocada pela inflação.
Este efeito é especialmente relevante quando o dinheiro fica parado numa conta à ordem ou numa solução com remuneração inferior à inflação. O saldo pode parecer estável, mas o valor real diminui.
É por isso que a inflação é muitas vezes chamada uma perda invisível. Não aparece como uma comissão. Não chega como uma factura. Não surge como uma linha negativa no extrato. Mas sente-se quando se vai ao supermercado, se abastece o carro, se paga a prestação, se renova um contrato ou se planeia uma despesa maior.
Inflação em 2026: como estamos a evoluir?
Em abril de 2026, a estimativa rápida do Instituto Nacional de Estatística apontava para uma taxa de inflação homóloga de 3,4% em Portugal. Isto significa que, em média, o cabaz de bens e serviços acompanhado pelo INE estava mais caro do que no mesmo mês do ano anterior. A subida foi explicada sobretudo pelo aumento dos combustíveis, num contexto em que os produtos energéticos e alguns alimentos continuavam a pressionar o orçamento das famílias.
Vejamos alguns exemplos:
1. Diminuição do poder de compra
Se recebe 1 000 euros por mês e a inflação é de 5%, os preços dos bens e serviços sobem 5% em média. O que custava 100 euros agora custa 105 euros. Se o salário não aumentar, pode comprar menos com o mesmo valor. Eis alguns impactos:
- Aumento dos preços de bens essenciais, como alimentos, energia e transportes;
- Menor capacidade de poupança pois uma maior fatia do rendimento é usada em despesas do dia a dia;
- Dificuldade em manter o mesmo estilo de vida, com menos viagens, lazer ou compras não essenciais.
2. Impacte diferente em grupos sociais
Grupos com rendimentos fixos, como pensionistas, são mais vulneráveis à inflação. As pensões não aumentam automaticamente com a subida dos preços. Em contraste, trabalhadores cujos salários podem ser ajustados pela inflação (como ocorre com alguns acordos coletivos) podem sofrer menos impacte.
Sem o devido ajustamento à inflação, os rendimentos fixos e, de acordo com a OCDE, os trabalhadores com salário mínimo podem perder poder de compra rapidamente.
Mais.Todas as pessoas sentem a inflação de forma diferente. Uma família que usa muito o automóvel pode sentir mais o aumento dos combustíveis. Um agregado com maior peso da alimentação no orçamento pode sentir mais a subida dos produtos alimentares. Quem tem crédito, renda, filhos ou despesas de saúde pode ter uma percepção ainda diferente.
Inflação e IRS
A inflação afeta o IRS porque, quando os salários aumentam para acompanhar a subida dos preços, os contribuintes podem acabar a pagar mais impostos, mesmo que o seu poder de compra real não tenha melhorado. Isto acontece quando os escalões de IRS não são ajustados à inflação.
Aumento do salário nominal sem ganho real
Se o salário de um trabalhador aumentar de 20 000 euros para 21 000 euros devido à inflação, pode passar para um escalão de IRS mais alto. Isto significa que vai pagar mais imposto, sem ter efetivamente mais dinheiro disponível. Ou seja, sem aumentar o seu poder de compra. Na prática, com estes dois efeitos:
- Mais imposto a pagar, mesmo sem aumento real do rendimento;
- Menor rendimento disponível após impostos.
Perda de benefícios fiscais
Se um aumento de rendimento devido à inflação fizer com que o contribuinte perca acesso a certos benefícios fiscais, pode aumentar ainda mais a carga fiscal. Embora o aumento salarial tenha sido apenas para compensar a inflação, acaba por pagar mais impostos. Na prática, com estes dois efeitos:
- Perda de deduções e benefícios fiscais;
- Aumento do valor total de IRS a pagar.
Uma forma de mitigar o impacte da inflação passa pelo ajuste dos escalões de IRS com base no aumento dos preços. Esta ação do Estado ajuda a garantir que os contribuintes não pagam mais imposto apenas porque os seus rendimentos aumentaram devido à inflação, sem ganhos reais no poder de compra.
Tome Nota:
Segundo projeções recentes do Banco Central Europeu (BCE), a inflação na área do euro deverá manter‑se acima da meta de 2% em 2026, entre 2,6% e 2,7%. Um reflexo sobretudo do impacto dos preços da energia e incerteza geopolítica. A partir de 2027, antecipa-se uma trajetória de desaceleração. Ou seja, estabilidade de preços, em torno dos 2% a consolidar‑se em 2028.
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Impacte da inflação nas poupanças
A inflação reduz o valor real das poupanças e dos rendimentos que podem gerar. Se a taxa de juro de poupanças ou dos investimentos for inferior à inflação, o contribuinte acaba por perder dinheiro em termos reais.
O primeiro grande impacte da inflação é alterar o valor que consegue poupar sobretudo por estas duas razões:
- Perante uma inflação alta, as despesas aumentam e sobra menos dinheiro para poupar;
- Níveis de inflação mais altos desvalorizam o ganho esperado com a poupança
Dito por outras palavras, quando as taxas de juro não acompanham as taxas da inflação, os ganhos diluem-se facilmente.
Por exemplo, se aplicar mil euros numa poupança a 12 meses com uma taxa de juro de 1%, mas a inflação for de 2%, apesar de ficar mais dinheiro na conta (cerca de 1 010 euros), este ganho não é suficiente para compensar a inflação.
Ou seja, para evitar perder poder de compra, teria de conseguir ter, ao fim de um ano, cerca de 1 020 euros.
Mas nada de desanimar. Existem estratégias para contrariar este efeito. A primeira das quais é diversificar a aplicação das poupanças em soluções que permitam garantir o seu incremento pelo menos, ao ritmo da inflação.
Dinheiro parado é dinheiro seguro?
Depende do que se entende por segurança.
Ter dinheiro disponível é essencial. Todas as famílias devem procurar criar uma poupança de segurança para responder a imprevistos, como uma despesa médica, uma reparação urgente, uma quebra de rendimento ou uma situação profissional inesperada. Esta reserva deve estar acessível, com baixo risco e adequada às despesas mensais essenciais.
O problema surge quando todo o dinheiro fica parado durante muito tempo, sem qualquer estratégia. Nesse caso, a poupança pode estar protegida de alguns riscos, mas fica exposta a outro: a perda de poder de compra.
É aqui que muitas decisões financeiras se tornam difíceis. Guardar dinheiro transmite uma sensação de controlo. Investir, por outro lado, pode parecer mais incerto, porque envolve oscilações e risco. O cérebro humano tende a preferir uma perda lenta e pouco visível a um risco que parece imediato. Mas essa sensação pode ser enganadora.A inflação mostra que não fazer nada também é uma decisão. E, em alguns contextos, pode ter custos.
O QUE A CAIXA PODE FAZER POR SI?
No caminho que percorre entre poupar e a etapa de investir o que poupa, procure soluções que respeitem o seu perfil de investidor. Antes de decidir, esclareça-se sobre as características do que vai subscrever e opte por entidades capazes desse esclarecimento rigoroso.
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Diversificar para proteger as poupanças da inflação
Depois de poupar, há que investir. Quando fizer as suas escolhas de investimento tem que lidar com diversos riscos, um destes é o risco (mas não só) de inflação que pode fazer depreciar o valor do dinheiro.
Ao distribuir o investimento por diferentes tipos de produtos, pode mitigar o impacte de eventuais perdas em qualquer tipo de ativo, nomeadamente por via da depreciação do valor do dinheiro.
Existem diferentes opções de investimento para aplicar as suas poupanças, nomeadamente:
- Certificados de aforro que são produtos de dívida pública emitidos pelo Estado português. Oferecem rendimentos que variam com a taxa Euribor a 3 meses, o que pode permitir que os juros acompanhem melhor a inflação;
- Depósitos a prazo são uma forma segura de poupança, com rendimentos contratados e embora os juros possam ser baixos (em comparação com a inflação) os depósitos são garantidos até 100 000 euros por depositante e em cada instituição bancária;
- Investir na bolsa é uma das possibilidades de aplicar as suas poupanças, mas com a prudência e o esclarecimento necessários. Nada de investir em soluções que não compreende ou em esquemas que possam parecer excessivamente sedutores.
Inflação nos dois por cento: porquê esta meta?
É frequente ouvir que o Banco Central Europeu que controla a inflação nos países da zona euro pretende atingir uma inflação de dois por cento. Mas porquê este valor? Na prática, manter uma inflação estável e previsível evita uma subida generalizada de preços e castiga o poder de compra, ao mesmo tempo que evita cenários de estagflação. Já longos períodos de inflação muito baixa (deflação) podem ter igualmente efeitos negativos. Diminui o investimento o que faz aumentar o desemprego.
Qual a relação entre a inflação e as taxas de juro
Quando a inflação aumenta, o valor do dinheiro diminui, o que significa que os preços dos bens e serviços sobem. Para controlar a inflação, os bancos centrais, como o Banco Central Europeu (BCE), tendem a aumentar as taxas de juro. Ao subir as taxas, o objetivo é encarecer o crédito, desencorajando empréstimos e consumo, o que ajuda a conter a procura e a pressão inflacionária.
Por outro lado, quando a inflação está baixa ou a economia desacelera, os bancos centrais podem reduzir as taxas de juro. Com juros mais baixos, o crédito torna-se mais barato, incentivando o investimento e o consumo, o que pode estimular a economia.
De acordo com o Banco de Portugal, um dos principais objetivos da política monetária é manter a inflação a um nível estável, próximo de 2%, para garantir o poder de compra dos cidadãos e a estabilidade económica do país.
O que causa a inflação?
Quando os confinamentos impostos pela pandemia chegaram ao fim, os consumidores estavam dispostos a comprar mais. No entanto, as cadeias de abastecimento não estavam preparadas para essa procura, pelo que os preços subiram.
Ter uma procura superior à oferta é uma das principais causas para períodos de inflação.
Por outro lado, a adoção de certas políticas financeiras pode também fazer disparar a inflação. É o que se verifica com a transição energética na Europa. Aumentam-se os seus preços para desincentivar o consumo de combustíveis fósseis.
Em 2024, podemos ainda nomear outros dois grandes causadores da inflação: a desvalorização do euro face ao dólar e o embargo dos produtos petrolíferos vindos da Rússia. O primeiro desprestigia o mercado da Zona Euro, enquanto o segundo aumenta o preço dos combustíveis.
Como dar a volta à inflação?
Quando o custo de vida aumenta, o melhor é encontrar estratégias de defesa.
Eis algumas dicas simples para combater a inflação:
- Reavaliar o orçamento familiar - Identificar áreas onde é possível cortar ou otimizar gastos, como subscrição de serviços e renegociação de contratos, assim como reduzir despesas variáveis (como lazer), ajuda a manter as finanças controladas;
- Criar um fundo de emergência - Ter uma reserva financeira para imprevistos pode evitar a necessidade de recorrer a crédito em momentos de inflação elevada e ajuda-o a manter as rédeas da sua vida financeira. Confira qual o estado da sua vida financeira neste quizz;
- Analisar e renegociar as ofertas de energia e telecomunicações - Compare regularmente as ofertas dos fornecedores de eletricidade gás, internet e comunicações. Muitas vezes, renegociar contratos ou mudar de fornecedores pode significar poupar e melhorar;
- Rever seguros e crédito - Verifique as condições dos seguros e dos créditos (habitação, automóvel.). Renegociar apólices de seguro ou procurar refinanciamento de crédito pode resultar em poupanças significativas;
- Consumir localmente e em segunda mão -Reduzir a dependência de produtos importados e optar por comprar em segunda mão ajuda a conter despesas;
- Uso racional e inteligente dos cartões de pagamento para beneficiar de descontos, parcerias e programas de cashback;
- Priorizar dívidas com juros altos - Pagar dívidas com taxas de juros mais elevadas ou que decorram de incumprimentos evita que cresçam com o tempo;
- Diversificar investimentos - Distribuir os recursos entre diferentes classes de ativos ajuda a reduzir o risco e a proteger contra a inflação;
- Evitar compras a crédito e ter cuidados essenciais quando contrair crédito contribuir para poupar dinheiro, muito útil em momentos de inflação alta.
Tome Nota:
No site do Banco de Portugal encontra gráficos com indicadores de referência, como a evolução da inflação. Consulte também as estatísticas do INE.
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A informação deste artigo não constitui qualquer recomendação, nem dispensa a consulta necessária de entidades oficiais e legais.
